Presidente da Anatel alerta para falta de soberania do Estado na inter



A internet e, em especial, as redes sociais sĂŁo ainda ambientes que dificultam, ao Estado brasileiro, exercer sua soberania no combate Ă queles que usam esse espaço para disseminar fake news ou para praticar crimes. O alerta foi feito pelo presidente da AgĂȘncia Nacional de TelecomunicaçÔes (Anatel), Carlos Manuel Baigorri, durante audiĂȘncia pĂșblica na CĂąmara dos Deputados.

Baigorri explicou aos deputados algumas dificuldades percebidas pela Anatel para que o setor de telecomunicaçÔes, com suas mais de 20 mil empresas operadoras, cumpra algumas decisĂ”es judiciais. Ele apresentou, tambĂ©m, sugestĂ”es de mudanças na Lei Geral de TelecomunicaçÔes, no sentido de definir competĂȘncias da agĂȘncia, relacionadas Ă s redes sociais. Sugeriu tambĂ©m a ampliação do nĂșmero de integrantes do conselho consultivo da agĂȘncia.

Soberania digital do Estado

Ao iniciar sua apresentação, o presidente da Anatel sugeriu aos parlamentares que refletissem sobre as limitaçÔes do poder pĂșblico com relação aos ambientes digitais. “Precisamos repensar qual Ă© a soberania digital do Estado brasileiro”, disse.

“E a CĂąmara dos Deputados, melhor do que ninguĂ©m, pode liderar esse debate porque, hoje, se o Estado brasileiro nĂŁo consegue fazer valer suas decisĂ”es no ambiente digital, a conclusĂŁo lĂłgica que se chega Ă© de que nĂŁo existe soberania do Estado brasileiro no ambiente digital. Acho que essa Ă© uma reflexĂŁo que nĂłs precisamos fazer”, disse Baigorri.

Segundo ele, hĂĄ dois elementos que acabam por favorecer a criação do atual “ambiente de badernas e de faroeste digital” em que se encontram as redes. O primeiro Ă© o que afasta a responsabilidade das plataformas sociais pelos conteĂșdos que nelas sĂŁo divulgados.

“As plataformas das mĂ­dias sociais sĂŁo substitutos das mĂ­dias tradicionais. SĂł que as mĂ­dias tradicionais se submetem a regras de responsabilidade editorial e sĂŁo responsĂĄveis por aquilo colocam no ar. Assim, se uma grande emissora fizer uma reportagem e alguĂ©m entender que aquilo nĂŁo era correto, Ă© possĂ­vel buscar, na Justiça, a reparação. Elas [as mĂ­dias tradicionais] tĂȘm obrigaçÔes e responsabilidades”, argumentou.

Falta de responsabilidade

“Esse tipo de responsabilidade nĂŁo existe no ambiente digital. HĂĄ um regime de completa falta de responsabilidade das plataformas, de tal forma que, por nĂŁo ter responsabilidade nenhuma sobre o que Ă© colocado nas mĂ­dias sociais ou em plataformas sociais, plataformas de comĂ©rcio eletrĂŽnico ou qualquer coisa que seja nĂŁo tĂąm nenhum incentivo Ă  tomada de medidas de moderação, de controle, ou de dever de cuidado”, acrescentou.

O segundo elemento citado pelo presidente da agĂȘncia, como catalisador dessa “baderna nas redes sociais” Ă© o anonimato, algo que, segundo ele, Ă© comumente utilizado para a prĂĄtica de crimes. “Esses dois elementos sĂŁo gasolina no fogo, e fazem o ambiente completamente caĂłtico que nĂłs temos hoje na internet.”

Baigorri explicou que, por meio das redes de telecomunicaçÔes, nĂŁo Ă© possĂ­vel retirar postagens em comentĂĄrios. “O que a gente consegue tirar Ă© o site inteiro. Quem tem domĂ­nio para retirar postagens Ă© a plataforma [de redes sociais]. Para uma retirada mais rĂĄpida, seria necessĂĄrio alterar o marco legal, para [nĂłs, da Anatel] termos poder sobre as plataformas de redes sociais no sentido de determinar, a elas, que retirem a postagem. E, caso a decisĂŁo nĂŁo seja acatada, retirar essas plataformas do ar.”

Ele explica que isso tambĂ©m ocorre com relação Ă s plataformas de vĂ­deo. “NĂłs nĂŁo retiramos o vĂ­deo do ar, mas as plataformas.”

Integração de sistemas

Outro ponto abordado por Baigorri Ă© a dificuldade para o cumprimento de algumas determinaçÔes da Justiça, principalmente pelas operadoras de menor porte. A integração de sistemas entre empresas e JudiciĂĄrio pode, segundo ele, dar fluidez ao cumprimento de decisĂ”es judiciais, em um cenĂĄrio em que a tendĂȘncia Ă© de aumento da veiculação de fake news.

“As ordens de bloqueio de site precisam ser implementadas, e isso depende muito da capacidade de cada empresa. Grandes empresas do mercado telecomunicaçÔes conseguem implementar isso de uma forma mais rĂĄpida porque tĂȘm equipes mais estruturadas e estĂŁo mais dedicadas para isso. JĂĄ as pequenas, que estĂŁo lĂĄ no interior e atendem dois ou trĂȘs bairros, podem demorar muito mais para implementar. Mas estamos dialogando com o TSE [Tribunal Superior Eleitoral] e com as operadoras para ver como melhorar isso”, disse o presidente da agĂȘncia ao defender formas de automatizar servidores para o bloqueio de conteĂșdos de forma centralizada. “O tempo de resposta ficaria bem mais rĂĄpido”, acrescentou.

Novas competĂȘncias

Baigorri defendeu tambĂ©m alteraçÔes na Lei Geral de TelecomunicaçÔes, em especial em artigos que definem espaço de competĂȘncias da Anatel. A ideia Ă© a de ampliar alcances que atualmente estĂŁo limitados Ă s empresas de telecomunicaçÔes, estendendo-os de forma clara Ă s plataformas de redes sociais.

Outra mudança sugerida por ele envolve a ampliação das representatividades no conselho consultivo da agĂȘncia. “Nosso conselho conta hoje com representantes da CĂąmara dos Deputados; de usuĂĄrios, empresas, sociedade civil; do Poder Executivo. Ele precisa ser ampliado para trazer JudiciĂĄrio, MinistĂ©rio PĂșblico, OAB [Ordem dos Advogados do Brasil], jornalistas. Dessa forma, trazendo mais agentes e vozes, ele serĂĄ empoderado”.

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