Os Pontos de Cultura espalhados pelo país, que tem atuação de base comunitária e voltada para os territórios, promoveram cerca de 1 milhão de atividades culturais gratuitas em 2024, segundo estimativa divulgada pelo Ministério da Cultura (MinC).![]()
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Para custear a ampla oferta das atividades às comunidades, no entanto, há dificuldades no acesso a recursos. Sete em cada dez pontos tiveram receita anual de até R$ 50 mil, e 26% não tiveram receita alguma.
As informações tem como base o Diagnóstico Econômico da Cultura Viva, realizado pela pasta em parceria com o Consórcio Universitário Cultura Viva (UFBA-UFF-UFPR). O estudo traz também apontamentos sobre os impactos da política cultural de base comunitária no país e os obstáculos que ainda enfrenta.
O levantamento estimou ainda que as ações promovidas pelas unidades atendem a cerca de 3 milhões de pessoas por mês.
Atualmente, são aproximadamente 16 mil pontos e pontões de cultura certificados pelo Minc, formando uma rede no âmbito do Plano Nacional de Cultura Viva.
Para a pesquisa, foram coletadas 2,4 mil respostas de pontos de cultura, distribuídos em 867 municípios de todas as unidades da Federação. As coletas de dados ocorreram entre julho e setembro do ano passado, tendo como período de referência as atividades realizadas entre março de 2023 e fevereiro de 2025.
Além da dificuldade aos recursos financeiros, os pontos de cultura enfrentam barreiras institucionais. Isso porque 37% são informais, ou seja, não têm CNPJ, e 50% afirmaram que têm dificuldades com burocracia e documentações, segundo os dados.
A parcela de 30% apontou falta de equipe e 26%, prazos curtos em editais.
Os recursos públicos são a principal forma de manutenção das atividades nesses locais: 76% acessaram recursos públicos nos últimos 24 meses anteriores às respostas dadas aos pesquisadores, enquanto apenas 25% conseguiram acessar recursos privados. Em 98% dos casos, eles nunca acessaram linha de crédito.
Para o professor Guilherme Varella, um dos coordenadores do consórcio pela UFBA, a pesquisa servirá ao aprimoramento das políticas públicas e fortalecimento dos arranjos produtivos, solidários e criativos que sustentam a ação cultural comunitária no país.
“O diagnóstico responde a uma demanda histórica da Rede Cultura Viva, que é transformar informações dispersas sobre a realidade econômica dessas iniciativas em uma base consistente de evidências, informações e indicadores”, explicou.
Práticas comunitárias
Há forte presença de trabalho coletivo e voluntário na sustentação das atividades culturais: 90% dos pontos mobilizam trabalho voluntário. Para o Minc, o resultado evidencia a dimensão comunitária da rede e o quanto ela funciona baseada em cooperação social.
A pesquisadora da Universidade Federal da Bahia (UFBA), Luana Vlutz, também coordenadora do consórcio de universidades Cultura Viva, afirmou que a chamada “economia viva” está ligada à preservação dos territórios, das memórias e das práticas culturais comunitárias.
“Essa economia da troca, da ajuda mútua e da colaboração existe. E 70% dos pontos afirmaram mobilizar essa economia não monetária”, ressaltou.
Ela participou da roda de conversa sobre economia viva, cultura e trabalho coletivo, durante a programação da 6ª Teia Nacional dos Pontos de Cultura, que ocorre em Aracruz (ES) até o próximo domingo (24).
A atuação territorial da rede é fortemente comunitária, confirmou o diagnóstico. Cerca de 74% dos pontos afirmam atuar “sempre” no âmbito local, bairro ou comunidade, e 65% mantêm atuação contínua na esfera municipal.
A presença virtual também aparece com destaque, sendo que 40,5% dos pontos informaram que atuam frequentemente em ambientes online.
Além disso, o estudo indicou que os pontos de cultura tem larga atuação em periferias, comunidades tradicionais, territórios indígenas, quilombolas e áreas rurais, o que condiz com a proposta de descentralização cultural e demonstra a presença de uma política de cultura nacional em territórios historicamente invisibilizados.
A rede toda conta com mais de 3,7 mil bibliotecas, mais de 2,2 mil salas de exposição, cerca de 2,8 mil cineclubes, 900 hortas comunitárias e 450 rádios comunitárias. Segundo o estudo, mais de 40% dos Pontos de Cultura oferecem salas de reuniões para a comunidade.
* A equipe de reportagem viajou a convite do Ministério da Cultura
