Ipea diz que mercado de trabalho pode absorver fim da escala de trabalho 6×1


Os custos de uma eventual redução da jornada de trabalho para 40 horas semanais seriam similares aos impactos observados em reajustes históricos do salårio mínimo no Brasil, o que indica uma capacidade de absorção da medida pelo mercado de trabalho. 

A conclusĂŁo Ă© de estudo publicado nesta terça-feira (10) pelo Instituto de Pesquisa EconĂŽmica Aplicada (Ipea), que analisa os efeitos econĂŽmicos da eventual redução da jornada atualmente predominante de 44 horas semanais, associada Ă  escala 6×1, que estabelece um dia de descanso a cada seis trabalhados.

A redução da jornada de trabalho teria um custo de menos de 1% em grandes setores, como indĂșstria e comĂ©rcio, mas alguns setores de serviços que dependem de mais mĂŁo de obra podem precisar de polĂ­ticas pĂșblicas, avalia o Ipea. 

Os pesquisadores citam, por exemplo, os reajustes histĂłricos do salĂĄrio mĂ­nimo, como os de 12%, em 2001, e 7,6% em 2012, que nĂŁo reduziram o nĂ­vel de empregos.

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A jornada geral de 40 horas semanais elevaria o custo do trabalhador celetista em 7,84%, mas, dentro do custo total da operação, o efeito é menor, diz o pesquisador Felipe Pateo.

“Quando a gente olha para a operação de grandes empresas na ĂĄrea de comĂ©rcio, da indĂșstria, a gente vĂȘ que o custo com trabalhadores representa Ă s vezes menos que 10% do custo operacional da empresa. Ela tem custo grande de formação de estoques, custo de investimento em maquinĂĄrio”, explica.

Jå empresas de serviços para edifícios, como vigilùncia e limpeza, podem ter um impacto maior, de 6,5% no custo da operação. Nesses casos, seria necessåria uma transição gradual para a nova jornada. O mesmo serviria para pequenas empresas, que podem ter até mais dificuldade para adaptar as escalas de trabalho, segundo Pateo.

“A gente vĂȘ que esse tempo de transição tambĂ©m Ă© muito importante para as empresas menores. E vocĂȘ precisa abrir possibilidades de contratação de trabalhadores em meio perĂ­odo, por exemplo, que possam suprir eventualmente um tempo de funcionamento num fim de semana, caso a redução de jornada possa dificultar esse processo”, observa.

Combate a desigualdades

O estudo também aponta que jornadas de 44 horas concentram trabalhadores de menor renda e escolaridade. Para o pesquisador, a redução da jornada pode reduzir desigualdades.

“Quando a gente reduz a jornada mĂĄxima para 40 horas, a gente bota esses trabalhadores que estĂŁo nos empregos de menores salĂĄrios, de menor duração do tempo de emprego, em pĂ© de igualdade, pelo menos na quantidade de horas trabalhadas. E a gente acaba aumentando o valor da hora de trabalho desses trabalhadores. EntĂŁo isso faz com que eles se aproximem das condiçÔes dos trabalhadores nas melhores situaçÔes trabalhistas”, argumenta.

Segundo a pesquisa, a remuneração mĂ©dia para quem trabalha atĂ© 40 horas por semana Ă© de R$ 6,2 mil. JĂĄ os trabalhadores de 44 horas recebem, em mĂ©dia, menos da metade. Esses trabalhadores com jornada maior tambĂ©m tĂȘm menor escolaridade. 

Segundo o estudo do Ipea, mais de 83% dos vĂ­nculos de pessoas com atĂ© o ensino mĂ©dio completo estĂŁo nessa condição, proporção que cai para 53% entre aqueles com ensino superior completo. Diferentemente de outras caracterĂ­sticas sociodemogrĂĄficas, a incidĂȘncia de jornadas estendidas mostra forte associação com o nĂ­vel de escolaridade.

A grande maioria dos 44 milhĂ”es de trabalhadores celetistas registrados na Relação Anual de InformaçÔes Sociais (Rais) em 2023 tinha jornada de 44 horas semanais. Ao todo, eles somam 31.779.457, o que equivale a 74% dos que tinham jornada informada. Em 31 dos 87 setores econĂŽmicos analisados, mais de 90% dos trabalhadores tĂȘm jornadas acima de 40 horas semanais. 

A Rais é uma declaração obrigatória na qual empresas brasileiras informam ao Ministério do Trabalho dados sobre seus funcionårios, vínculos empregatícios e salårios.

Empresas menores

Um desafio apontado no estudo do Ipea Ă© para as empresas de menor porte, pois elas tĂȘm, proporcionalmente, mais trabalhadores com jornadas superiores a 40 horas. Enquanto a mĂ©dia nacional indica que 79,7% dos trabalhadores tĂȘm jornadas superiores a 40 horas semanais, esse percentual sobe para 87,7% nas empresas com atĂ© quatro empregados e para 88,6% naquelas que empregam entre cinco e nove trabalhadores. 

Os trabalhadores atualmente submetidos a jornadas superiores a 40 horas somam 3,39 milhÔes nas empresas com até quatro empregados e 6,64 milhÔes quando se consideram aquelas com até nove trabalhadores.

Esses setores incluem, por exemplo, segmentos da årea de educação, atividades de organizaçÔes associativas e outros serviços pessoais, como lavanderias e cabeleireiros, nos quais predominam jornadas estendidas entre empresas com até quatro trabalhadores.

Debate

A redução da jornada de trabalho de 44 horas para 40 horas e o fim da escala 6×1 entraram de vez no radar polĂ­tico do paĂ­s neste inĂ­cio de ano. 

Nesta terça-feira, o presidente da Cùmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), disse que uma das prioridades da Casa neste ano é justamente votar esses direitos trabalhistas. Em suas redes sociais, Motta escreveu que a anålise pelos deputados pode se dar em maio. 

Atualmente, duas propostas estão sendo discutidas na Casa sobre o assunto: uma da deputada Erika Hilton, a PEC 8/25, e outra pelo deputado Reginaldo Lopes, a PEC 221/19. 

Na mensagem enviada ao Congresso Nacional, na semana passada, o presidente Luiz Inåcio Lula da Silva também colocou o tema entre as prioridades do governo para o semestre. .

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