PL da Dosimetria beneficia criminosos comuns, dizem especialistas


O projeto de lei (PL) da Dosimetria reduz o tempo de progressĂŁo de pena para alguns criminosos comuns, afirmam especialistas em direito consultados pela AgĂȘncia Brasil. O texto foi aprovado na CĂąmara dos Deputados para beneficiar os condenados envolvidos na tentativa de golpe de Estado que culminou no 8 de janeiro de 2023, incluindo o ex-presidente Jair Bolsonaro.  

O professor de direito da PUC do Rio Grande do Sul (RS) Rodrigo Azevedo destaca que a mudança reduz “sensivelmente” os percentuais de cumprimento de pena para a progressão em comparação ao modelo vigente desde 2019, especialmente os crimes comuns não violentos.

“Na prĂĄtica, ela beneficia sim criminosos comuns, pois padroniza o marco bĂĄsico de progressĂŁo em um sexto da pena, reservando percentuais mais altos apenas para crimes violentos e hediondos. Isso representa um afrouxamento relevante em relação ao sistema atual, que exige 20% para primĂĄrios e 30% para reincidentes, mesmo em crimes sem violĂȘncia”, disse o especialista.

O professor de direito da PUC do Rio, o advogado e criminalista JoĂŁo Vicente Tinoco, tambĂ©m afirmou Ă  AgĂȘncia Brasil que a mudança deve beneficiar condenados por alguns tipos de crimes.

“Quando veio a legislação em 2019, do pacote anticrime, a situação dos presos se agravou. O que o PL da Dosimetria faz agora Ă© dar um passo atrĂĄs. Ele nĂŁo volta totalmente [ao texto antes de 2019], mas dĂĄ um passo atrĂĄs em relação a algumas das hipĂłteses”, disse.

Segundo o relator, deputado Paulinho da Força (Solidariedade-SP), o projeto foi construído com o apoio de juristas para evitar que criminosos comuns sejam beneficiados.

“NĂŁo hĂĄ nenhuma possibilidade de este texto beneficiar crime comum. Ele trata apenas do 8 de Janeiro. Os principais juristas deste paĂ­s, os mais renomados, bateram o martelo: este texto nĂŁo trata de crime comum”, disse durante a sessĂŁo que aprovou a matĂ©ria na CĂąmara.

O professor de direito Rodrigo Azevedo, que tambĂ©m Ă© membro do FĂłrum Brasileiro de Segurança PĂșblica, afirma que o argumento do relator nĂŁo se sustenta.

“A Lei de Execução Penal [Lei 7.210 de 1984] Ă© uma lei geral, que disciplina a forma de cumprimento de penas para todas as pessoas condenadas no paĂ­s. NĂŁo existe, no sistema constitucional brasileiro, a figura de uma lei de execução penal aplicĂĄvel apenas a um grupo especĂ­fico de condenados”, afirma o especialista.

Azevedo acrescentou que hoje um condenado por roubo só progride após cumprir 40% da pena, mas que “com o texto aprovado, se for primário, poderá progredir após 25%, mostrando que a mudança afeta diretamente crimes comuns e não apenas os casos do 8 de janeiro”.

Entenda

O texto do PL 2.162 de 2023 permite que o preso passe do regime fechado para o semiaberto, ou do semiaberto para o aberto, quando cumprir um sexto da pena, o que representa 16% do total do tempo da condenação. 

Atualmente, a progressĂŁo apĂłs 16% da pena Ă© apenas para rĂ©us primĂĄrios em crimes sem violĂȘncia, podendo chegar a 70% da pena se for reincidente em crime hediondo.

O PL da Dosimetria inova ao permitir que condenados por crimes com violĂȘncia ou grave ameaça, como Ă© o caso dos crimes de tentativa de golpe de Estado, se beneficiem com a progressĂŁo menor, de 16%. 

Ao mesmo tempo, o projeto de lei inclui uma série de exceçÔes a essa regra principal, aumentando o tempo de cumprimento de pena de acordo com o tipo de infração.

Se a condenação for por crimes previstos nos títulos 1 e 2 do Código Penal, que são crimes contra a pessoa e contra o patrimÎnio, por exemplo, o tempo mínimo para progressão de regime é de 25%.

O advogado criminalista JoĂŁo Vicente Tinoco explicou que hĂĄ outros crimes que, praticados com violĂȘncia, nĂŁo estĂŁo nesses tĂ­tulos do CĂłdigo Penal.

“O problema Ă© que tem uma sĂ©rie de outros crimes que igualmente nĂŁo estĂŁo nos tĂ­tulos 1 e 2 do CĂłdigo Penal e que sĂŁo praticados com violĂȘncia grave e ameaça, e nesses os presos serĂŁo beneficiados”, disse.

João Vicente afirma que mudar a legislação para atender um caso específico gera distorçÔes difíceis de calcular.

“É sempre muito delicado quando o legislador decide modificar a lei, que vale para todas as pessoas, pensando em um caso especĂ­fico ou em beneficiar uma pessoa especĂ­fica, porque isso potencialmente gera distorçÔes”, completou.

Para o professor Rodrigo Azevado, da PUC do RS, o PL da Dosimetria contradiz o PL Antifacção, aprovado na Cùmara e que endurece as regras para progressão de regime de integrantes de facçÔes ou milícias.

“Aprovar projetos contraditĂłrios apenas fragiliza o Sistema Único de Segurança PĂșblica (Susp), gera incerteza para juĂ­zes e operadores da execução penal e dificulta a formulação de polĂ­ticas de segurança pĂșblica estĂĄveis e eficazes”, concluiu.

O PL da Dosimetria deve ser analisado na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado na próxima quarta-feira (17), sob a relatoria do senador Esperidião Amim (PP-SC), aliado do ex-presidente Jair Bolsonaro e que defende anistia total aos condenados por tentativa de golpe de Estado.

0